A Maria e o Diogo costumam entrar por aqui ao final da tarde. Chegam extenuados, sujos. Trazem lama ou pó de terra. Palhas. Pedem desculpa. Sorrimos todos: aqui não há nada a desculpar a não ser o espaço ser pequeno, para a imensidão da dignidade e intensidade do trabalho a que se entregam, e de que apenas pressentimos um pouco. Muito pouco. Apenas o pouco que se revela na sujidade das terras, da palha: dedicação ao acolhimento e protecção de burros.
Rapidamente, o regresso das palavras. Vibrantes. De um entusiasmo apaixonado. Fincadas na indignação imposta pela realidade que habitamos, e que lhes desenha a lucidez. Ganhamos [dessas palavras] o encontro amável e esplêndido dos burros. Ganhamos os burros. Todos. Aqueles mesmos a que se dedicam - a salvar, a cuidar, a proteger - e ganhamos todos os outros. Todos os outros burros do mundo todo. Em extinção. Bichos de que nos esquecemos de ver a nobreza que achamos ver no cavalo; ou a força bruta e útil que quisemos ver no boi, e que hoje esbanjamos inutilmente no diesel, no tractor.
E o burro via-se [não há muitos anos], por todo o lado, de passo curtinho, firme e enérgico. Carregado, carregado. A fazer rolar carros nos empedrados, nos caminhos de pó ou lamacentos. Quem conhece, diz que tem pisar-caminhos sábio. Com tacto nos cascos. Pondera o perigo, a dificuldade fútil. Recusa-os com sensatez e inteligência.
Os burros que ganhamos com a Maria e o Diogo, atingem-me, e desconfortam-me. Olham-me e denunciam como tornamos o nosso pensar e a capacidade de Ver com inteligência, reféns de quem faz ideias por nós. Preguiçosos, aceitamos a ideia milenar do burro insensato de Midas. Sem inteligência. Precipitado no juízo do gosto. Capaz de trocar a fundura e antiguidade de Apolo, pelo ruído efusivo dos sátiros. Usamo-lo como insulto. Habituámo-nos a ver o burro, burro.
É o contrário. Precisamos de o reencontrar. Precisamos de nos reencontrar. O burro leva-nos até lá.
(Arqº. Pedro Partidário. Texto que acompanha a exposição de desenho burricadas.org)
"Março...mês dos burros!?"
Diz-nos a voz popular
que quem nasce em mês de Março
traz etiqueta de burro
vistas as coisas a frio
acho atè que é elogio
sempre é melhor que casmurro...
que burro é boa pessoa
da provincia ou de Lisboa
quando passa cumprimenta...
é relógio de horas certas
à hora certa desperta
e acorda a sua jumenta
não anda por aí à toa
gosta de palha mas boa
come que dá gosto ver,
não é com ele dar graxa
não se mete na cachaça
trabalha para viver
no dia a dia é sisudo
não se zanga por ser burro
não mete os pés pelas mãos
tem cravos nas ferraduras
mas não crava as criaturas
nem engana os seus irmãos
são de boas qualidades
vão às compras ao mercado
sabem onde é o sapateiro
conhecem bem o caminho
quando vão para o moinho
vão à frente do moleiro
Conheci-os na Primária
e até na Classe Operária
na Fábrica como na Escrita
sempre bons trabalhadores
nem todos serão doutores
mas nenhum é parasita
Ufano por ver aceite
a minha obra asinina
voto p´ra que a salvação
dessa Espécie mal amada
e que o progresso extremina
seja por vós alcançada
1-Nov 2009
José Henrique Faria (natural de Lisboa, nascido a 20 de Março de 1920)